Eu era a tela

Há alguns dias, tive uma experiência reveladora e, ao mesmo tempo, assustadora ao lecionar em um dos meus sextos anos. O sexto ano já é amplamente conhecido como desafiador, alvo frequente de piadas internas entre professores e sinônimo de caos e estresse.

Comecei a ensinar sobre o Egito Antigo de modo “tradicional”, com resumos esquemáticos e aulas expositivas. A ideia era dar à turma agitada o estímulo físico do resumo a ser copiado e, ao mesmo tempo, o estímulo da explicação expositiva. As aulas não estavam indo bem: muita conversa, agitação e indisciplina. Sim, na prática, a teoria é outra; o que vale é um empirismo prático: aquilo que funcionar melhor. Mas isso é assunto para outro texto.

Então, resolvi mudar de tática e partir para uma apresentação de slides preparada por mim, trabalho de primeira, nada genérico e bastante atrativa. A princípio, a mudança pareceu positiva: a conversa paralela quase cessou, e a atenção e a participação dos alunos melhoraram.

No entanto, na metade da aula, a turma já estava novamente agitada, mas de um modo diferente. As perguntas brotavam a cada poucos segundos de explicação. Muitos alunos faziam questionamentos acerca de detalhes relacionados ao Egito Antigo, dispersando-se completamente do assunto principal.

Por um momento, expliquei que era necessário, primeiro, ouvir com atenção para compreender os pontos fundamentais do assunto e, em um segundo momento, tirar quaisquer dúvidas. No entanto, a chuva de perguntas continuou interrompendo a exposição. Frequentemente, as dúvidas não eram dúvidas legítimas, mas suposições: muitos “e se…” seguidos de situações hipotéticas muito exóticas e chamativas.

Nesse momento, percebi o que acontecia em minha tentativa de aula. A tela com slides emulava o celular. Eu, o professor, era a voz, o narrador. Os aspectos básicos e didáticos do conteúdo não eram atrativos o suficiente; a tela não cumpria o seu papel cotidiano de ferramenta de instrução e não fornecia aos alunos aquilo a que estavam habituados.

Logo, faziam diversas perguntas na tentativa de me fazer trazer algum conteúdo mais interessante, mais estimulante. Eu e minha apresentação de slides nos tornamos apenas uma versão piorada do TikTok, dos Reels do Instagram ou dos Shorts do YouTube.

Esse episódio me deixou perplexo. É claro que eu já sabia da existência dos problemas provocados pelo excesso de exposição às telas e pelo acesso a conteúdos inadequados. No entanto, o que eu não percebia era que muitas crianças pareciam estar interagindo comigo, um ser humano, como se eu fosse a tela de um aplicativo. Estavam tentando “rolar a tela” para me tornar mais atrativo, mais divertido, mais estimulante.

Tentei substituir a velha aula expositiva, com resumos esquemáticos, por uma tela, imaginando que atrairia a atenção dos alunos, e passei a ser visto como parte da própria tela. Pergunto-me hoje quantas pessoas já aprenderam a interagir com outras como se fossem telas, nas quais se busca sempre o prazer, a diversão, o estímulo e, quando não se encontra aquilo que se deseja, simplesmente se busca em outro lugar. Pergunto-me ainda quantos são hoje incapazes de maravilhar-se com coisas simples, de acompanhar com interesse um raciocínio e quantos terão ainda a capacidade de guardar o conhecimento em si e ruminá-lo sem pressa.

Imagino como serão as relações entre pessoas treinadas para “rolar” pessoas; quantas relações podem perecer pela percepção de que o outro se tornou “chato”, quando, na verdade, pode estar simplesmente triste ou mesmo doente. Quantos já terão dificuldade de contemplar em silêncio a beleza do pôr do sol de Colatina, minha cidade natal?

O sinal estridente, como o de uma fábrica, tocou. Recolhi meu notebook e saí da sala sem saber o que fazer com essa descoberta.

24 de agosto de 2024

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