05 de março: Cheguei à base de pesquisa de Noronha, onde tenho vinte pacientes sob observação. O isolamento da ilha torna tudo mais seguro. A instalação é pequena, mas bem equipada, e os colegas me receberam muito bem.
06 de março: Participei de uma reunião com a equipe multidisciplinar. Compartilharam experiências acumuladas nas primeiras semanas de contenção. A maioria do trabalho é feita por observação remota. Estou ansioso para iniciar a pesquisa de campo.
10 de março: Os primeiros dias de pesquisa não correram como eu esperava. Fui designado para a sala de observação, onde acompanho os pacientes apenas pelas câmeras.
De acordo com os estudos conduzidos na base, os movimentos involuntários e a agressividade cessam quando os infectados são mantidos em um ambiente desprovido de estímulos visuais e auditivos.
20 de março: Tédio é tudo o que há nos meus plantões. Passo horas observando, pelos monitores, aquelas celas brancas com seus pacientes imóveis.
É quase inacreditável pensar que devorariam o rosto de alguém se fossem expostos a estímulos.
Muitos deles permanecem encarando diretamente as câmeras por longos períodos, imóveis, como se esperassem algo.
21 de março: De acordo com o doutor Aranha, os infectados não são completamente aleatórios em seu comportamento. Em casos raros, podem apresentar sinais de racionalidade.
Há relatos não confirmados de tentativas de comunicação.
24 de março: Nos plantões não observo nada além da monotonia dos pacientes em suas celas brancas. Permanecem quase completamente imóveis.
31 de março: O paciente 17 permanece próximo da câmera, encarando-a de boca aberta. Seus olhos movem-se para cima e para baixo em movimentos regulares. A princípio imaginei tratar-se de espasmos involuntários. O comportamento repetiu-se diversas vezes durante o plantão.
01 de abril: Entreguei o primeiro relatório, ainda com poucas observações. Incluí nele o caso do paciente 17.
05 de abril: O paciente 12 parece apresentar comportamento análogo ao do 17. Também se posiciona próximo da câmera e seus olhos movem-se repetidamente para a esquerda e para a direita.
12 de abril: Os pacientes 12 e 17 voltaram a apresentar os padrões oculares já mencionados. Além deles, o paciente 20 agora exibe comportamento semelhante: posiciona-se diante da câmera e pisca repetidas vezes.
20 de abril: O padrão ocular do paciente 20 me intriga. Ele pisca repetidas vezes, num ritmo quase regular, quase musical.
01 de maio: Se existe alguma possibilidade de comunicação entre nós e os infectados, é pelos olhos.
Escrevi meu relatório mensal. O dr. Aranha apreciou minha observação sobre os padrões oculares e sugeriu que eu aprofunde o estudo.
05 de maio: Os dados produzidos pelo meu antecessor foram apagados do sistema. Soube que ele morreu ao tentar destruir um dos infectados com uma arma roubada do arsenal.
15 de maio: O paciente 3 passou a encarar a câmera de sua cela, assim como o paciente 8, que apresenta um padrão de piscadas. Pisca 19 vezes, pausa; depois 15 vezes, nova pausa; em seguida mais 19. Ambos têm em comum os olhos avermelhados e o sofrimento estampado no rosto.
16 de maio: Os plantões já não são monótonos. Os olhos dos infectados falam; de algum modo, todos parecem dizer que sofrem. Sinto-me um tolo, talvez louco, mas começo a sentir pena deles. Aqueles olhos são a mais pura miséria.
17 de maio: O paciente 20 é o mais promissor e, ao mesmo tempo, o que mais me dói observar. As piscadas, o ritmo, o padrão — parece haver ali algo além da dor física.
24 de maio: O paciente 20 continua a repetir o mesmo padrão de piscadas. Parece código Morse. A hipótese é pouco ortodoxa, mas preciso investigá-la.
25 de maio: O paciente 20 executa uma sequência de piscadas: três curtas, três longas, três curtas. Parece um sinal de S.O.S em código Morse. Ainda me custa acreditar; o dano neurológico é grave demais para isso. Preciso de mais evidências.
27 de maio: O paciente 8 ainda repete o mesmo padrão de piscadas: 19 seguidas de pausa, depois 15, nova pausa, e novamente 19. A 19ª letra do alfabeto é S; a 15ª é O. Portanto, 19–15–19 corresponde, por substituição simples, a S.O.S.
Será coincidência? S.O.S em duas mensagens? Serão realmente mensagens ou estou criando padrões onde não existem?