Na madrugada abafada, o homem entrou no edifício sem porteiro. Deu com um aviso: ELEVADOR QUEBRADO. Subiu as escadas em direção ao sexto andar.
A camisa grudou nas costas suadas. No segundo andar, cruzou com um homem que desceu rápido e fungando. No quarto, passou por um casal aos beijos. Baixou a cabeça em ambos os encontros.
No sexto, andou rápido. Aproximando-se do 606, retirou da mochila uma escopeta de cano serrado. Abriu a báscula e viu dois cartuchos vermelhos.
Aproximou a orelha retorcida da porta. Só o zumbido das lâmpadas pálidas. Testou a maçaneta lentamente. Cedeu.
Empurrou a porta com o ombro. Enquanto abria, ouviu uma voz poeirenta:
— Dona Dilma, é a senhora?
Terminou de abrir a porta.
O homem armado esperava encontrar olhos de vidro e dentes afiados. Mas o que ele viu foi um homem de pele amarelada quase colada aos ossos e olhos fundos. O morador, de cabelos ralos colados à testa, continuou sentado em sua poltrona.
Por um instante, lembrou-se do tio que morrera de câncer.
Piscou. Apontou a escopeta para o esquálido na poltrona.
— Veio me apagar? — perguntou seco.
— Levanta as mãos — ordenou o caçador.
— Não — respondeu ofegante.
— Se vai me apagar, pelo menos me faça companhia.
O caçador ficou em silêncio. Nenhum pensamento.
— Senta — disse apontando uma cadeira com o dedo ossudo.
O caçador apontou os canos pretos para o rosto amarelado.
— Guarda a arma, é muito barulhenta. Você vai acabar morto ou preso.
— O que é você? — disse o caçador hesitante enquanto puxava a cadeira.
— Um amaldiçoado — um parasita.
— Pensei que vocês não adoecessem.
— Você está quase certo. Fome — só ela adoece, mas não mata — disse com o peito chiando.
— Quer chá? Para mim, tudo tem gosto de cinzas, mas talvez você goste. — ofereceu o homem ossudo mostrando uma chaleira e um conjunto de quatro xícaras sobre uma mesinha.
— Obrigado, mas não.
O caçador olhou ao redor, era um apartamento minúsculo. Cortinas grossas e pretas ao fundo. Havia uma pequena estante com uma bíblia e alguns livros finos, estatuetas de santos e uma imagem maior da Virgem de Guadalupe da qual pendia um rosário. Mais ao fundo do apartamento havia apenas um fogareiro ligado a uma botija pequena e um colchão fino. O lugar era simples e cheirava a desinfetante de lavanda. Ficou imóvel por um instante.
— Não vim aqui brincar de “entrevista” — disse o caçador.
— Nem eu — cortou o homem esquálido.
— Não quero contar nada, nem implorar.
— Apenas me faça companhia e você sairá daqui satisfeito.
O caçador fixou os olhos no homem sentado.
— O que aconteceu com você? O dentista arrancou suas presas? — zombou o caçador.
O amaldiçoado sorriu por um instante.
— Descobri que posso jejuar. Faz tempo que não tomo nem sangue de animais, que sustenta pouco e atiça a compulsão.
O caçador mantinha o dedo no gatilho.
— Pegue — disse ao caçador apontando um envelope na estante.
— Aí tem dinheiro, quero que você entregue à Dona Dilma, ela me ajuda muito. Ah. Ela mora no 609. Está escrito no envelope.
— A imagem maior, de Guadalupe, quero que você entregue à Letícia, do 505, mas não estique a conversa, nem entre no apartamento.
— Dentro da estante tem uma caixa de lâmpadas, são da Maria, uma menina do 601, ela tem medo do escuro.
O caçador olhou de soslaio para o relógio no pulso.
— Que horas são?
— Quase dia.
— Quero que você arranque as cortinas, o colchão e ponha tudo no corredor. Quando sair, tranque a porta e leve a chave.
O caçador tirou o dedo do gatilho, mas ainda segurou a arma. Levantou-se e puxou as cortinas ao chão e jogou-as junto do colchão no corredor.
— Posso tomar o chá agora? — disse ainda de pé.
— Claro.
— O rosário é seu.
O amaldiçoado continuava sentado. Pela janela, os primeiros raios do sol apareceram. O caçador baixou a cabeça. Quis pensar em algo para dizer, mas não conseguiu olhar outra vez para o homem na poltrona. Não. Trancou a porta e foi embora ainda sem saber o que pensar.
FIM