Desde 2012 tivemos o fim do calendário maia, a ameaça de colisão do planeta Nibiru e a suposta descoberta de Ratanabá (que nome!), entre outras calamidades imaginárias ou reais. Se você lê este texto, é porque o mundo ainda está aqui — não acabou.
Sim, o mundo continua aqui e, neste momento, em 18 de julho de 2026, eu mesmo ainda estou aqui, porém muito diferente daquele de 2012, quase outro, apesar de ainda não ter trocado as duas pernas do meio da vida pelas três da velhice, como no enigma da Esfinge.
O fato é que mudei. Quem me conhece de perto sabe o quão gradual e profunda foi essa transformação. Alguns velhos vícios foram vencidos, outros mitigados. Esperanças juvenis secaram com o calor do meio-dia da vida, sem, no entanto, inaugurar uma maturidade desesperançosa de tudo. Em vez disso, veio a esperança, ainda que vacilante, nas promessas de Cristo.
E assim tem sido a vida: tropeços, quedas e levantamentos sucessivos; casamento, filhos, dívidas, perdas humanas, vexames e conquistas. Nada muito diferente das vidas de tantos bilhões de homens pelo mundo — exceto que em mim se operou uma transformação mais profunda na alma.
Toda essa transformação teve um ponto de início: o fim do calendário maia, 2012, e o chamado “apocalipse Olavo de Carvalho”. Em algum momento daquele ano, meu último na faculdade, o algoritmo do YouTube, ou a Providência, me colocou frente a um vídeo do professor Olavo de Carvalho. A partir daquele instante, comecei a maratonar o programa TrueOutspeak. Nunca mais fui o mesmo.
O ano seguinte, 2013, trouxe as manifestações de rua, a agitação política e intelectual no Brasil. Para mim, foi o despertar das primeiras tentativas de uma tal “vida intelectual”.
Tentei ser aluno do Seminário de Filosofia do professor Olavo de Carvalho. É claro que, na minha situação, fui incapaz de avançar além de trinta e poucas aulas. Contudo, a busca pela vida intelectual, que começou com grandes pretensões, completamente megalomaníacas à la Raskolnikov, deu gradualmente lugar a ambições menos grandiosas, mas não menos importantes.
Hoje, em 2026, acredito que talvez esteja apto a iniciar os estudos no curso de filosofia do professor Olavo — que Deus o tenha em Sua glória eterna — como aluno mais modesto. Ainda luto contra os vícios e más inclinações. Luto para rezar todos os dias, para manter a frequência aos sacramentos, para ser um bom trabalhador, bom pai e marido; luto diariamente para manter-me lendo e estudando.
Essa luta tem sido feita de dias perdidos, fracassos, livros interrompidos e textos não compreendidos, mas também de aprimoramento da linguagem e, especialmente, do reconhecimento da verdade, da sua existência, da pessoa Verdade. Mais recentemente, percebi a necessidade de me expressar por meio da escrita, especialmente da ficção.
Não sei se publicarei um livro de contos, romance ou crônicas. Sei apenas que preciso continuar aprendendo, com tropeços e quedas, mas sempre me levantando, sempre avançando — sem fórmulas de marketing ou produtividade, sem glórias fingidas ou cagação de regra. Com brinquedos do filho sobre a mesa, rabiscos no caderno de latim e interrupções da filha tagarela, devo continuar. Sempre.