Tácito, historiador romano, há quase dois mil anos, observou como os bárbaros germânicos se entregavam facilmente aos jogos de azar. Homens fortes, capazes de desafiar um império pela força da espada, prostravam-se encantados diante do rolar de alguns dados. O próprio Tácito reconheceu que os bárbaros possuíam virtudes. Admirava-lhes a coragem, a resistência e a fidelidade aos companheiros.
Também os bárbaros conheciam as vantagens da civilização: as cidades, os aquedutos, o esgoto canalizado, o comércio abundante e os confortos que somente uma sociedade longamente construída é capaz de produzir.
Naquele mundo em que muitos já percebiam sinais de desgaste da civilização romana, esses mesmos guerreiros, corajosos o bastante para se chocar contra um testudo romano, entregavam sem hesitação os bens conquistados com sangue e ferro em partidas de dados.
Apostavam, perdiam e apostavam novamente, até que nada mais lhes restasse. Quando os bens se esgotavam, apostavam a si mesmos. Perdiam, enfim, a própria liberdade.
O vício em jogos, é claro, não era uma exclusividade dos bárbaros. Ele acompanha a humanidade desde a Antiguidade. Ainda assim, não deixa de chamar a atenção que, em épocas de incerteza, a esperança de conquistar uma fortuna por um golpe de sorte pareça exercer fascínio ainda maior. Como se o acaso pudesse oferecer, num instante, aquilo que o trabalho de uma vida inteira talvez não conseguisse produzir. Como se fosse possível desfrutar dos últimos confortos de uma civilização ao som das cidades crepitando sob um céu crepuscular.
Talvez seja esse o ponto mais interessante. Em tempos nos quais tudo parece caminhar para a ruína, muitos homens passam a viver apenas para o presente imediato. Já não desejam construir; desejam apenas conservar, por mais alguns anos, um fragmento do conforto que ainda resta. Pouco a pouco, perde-se a compreensão da própria natureza da riqueza. Esquece-se que ela nasce do trabalho, da produção, da técnica, da confiança entre as pessoas e do acúmulo paciente de gerações. Em seu lugar, passa-se a imaginar que riqueza é apenas moeda — ou, em nossos dias, números piscando na tela de um celular.
Não surpreende, então, que o Brasil viva hoje uma verdadeira epidemia de jogos de azar. As plataformas de apostas oferecem a milhões de pessoas uma promessa sedutora: mudar de vida rapidamente, escapar do trabalho paciente e alcançar, por sorte, aquilo que antes parecia depender de anos de esforço.
A publicidade vende muito mais do que apostas; vende esperança.
Seria simplista atribuir esse fenômeno apenas à ganância ou à ignorância. Parece haver algo mais profundo. Quando uma sociedade perde a confiança de que o trabalho é capaz de produzir uma vida melhor, cresce naturalmente a tentação de confiar no acaso. Essa perda de confiança não surge do nada. Ela cresce quando o esforço parece deixar de ser recompensado, quando o horizonte se encurta e quando o futuro deixa de parecer uma promessa para tornar-se apenas mais uma incerteza. O problema deixa de ser apenas econômico e torna-se civilizacional. O jogo passa a ocupar o lugar que antes pertencia ao trabalho, à poupança e ao desejo de transmitir aos filhos uma riqueza construída lentamente.
Os bárbaros descritos por Tácito apostavam a própria liberdade sobre uma mesa de madeira. Nós fazemos o mesmo diante de uma tela iluminada. Os dados mudaram de forma. A tentação permanece.
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