Em seu artigo “O imbecil juvenil”, de 1998, o professor Olavo de Carvalho diz que uma mentira na qual nunca caiu foi aquela que “celebra a juventude como uma época de rebeldia, de independência, de amor à liberdade”. É possível que tenha escrito isso a partir de sua experiência de juventude, vivida na década de 1960. Contudo, como era de seu estilo e como o próprio texto deixa claro, falava também das ideias e dos comportamentos juvenis de outros tempos, citando o nazismo, o fascismo, o comunismo e outros fenômenos históricos.
Tanto na época em que a juventude foi arrebatada pelos movimentos de massa do nazifascismo e do comunismo quanto nos anos 1960, entorpecidos pela liberação sexual e pelas drogas, havia ainda uma instituição mais presente na formação dos jovens do que hoje: a família. Ela podia ser falha, injusta e, em alguns casos, até opressora, mas ainda funcionava como um primeiro filtro entre o indivíduo e o mundo exterior. Atualmente, muitas vezes debilitada ou reduzida à família nuclear, disputa essa influência com forças muito mais abrangentes.
Hoje temos uma nova linguagem e uma nova subcultura juvenil. Vemos frequentemente vídeos de adolescentes e até de jovens adultos realizando performances públicas chamadas de “farmar aura”. Essas performances incluem danças ou coreografias, ensaiadas ou improvisadas, gestos e, em alguns casos, movimentos tão exagerados que parecem convulsões. O termo vem do universo dos jogos eletrônicos e quer dizer algo como adquirir reputação, prestígio ou fama. Há até competições, embora eu confesse não compreender bem quais seriam seus critérios de julgamento. Parece que, no fim das contas, trata-se de uma competição para chamar a atenção, para ser mais marcante.
Sim, essas performances atuais parecem exóticas e, não raras vezes, vergonhosas. Mas, olhando pelo retrovisor da história, os anos 1960 já não parecem tão gloriosos quanto outrora. A juventude atual não inventou a imbecilidade coletiva. O que mudou foram as circunstâncias nas quais ela se manifesta: o enfraquecimento da família e a popularização de uma internet onipresente, acessada por meio de jogos on-line, redes sociais e smartphones. Essa combinação parece exercer influência importante sobre o nascimento desse novo imbecil juvenil.
No passado, adolescentes e jovens foram conduzidos pelas flautas das ideologias, que lhes ofereciam um papel grandioso: o de bola de demolição das velhas estruturas consideradas corruptas e opressoras. A imaturidade própria da juventude era aproveitada para lançar os jovens em ações planejadas e dirigidas por homens mais velhos e experientes. O jovem imaginava-se rebelde exatamente quando marchava com a multidão, como um soldado obediente e disciplinado, muitas vezes sob a aparência de um rebelde desgrenhado.
Os farmadores de aura da atualidade, ao menos em sua maioria, não parecem se enxergar como realizadores de nenhuma grande revolução política ou de costumes. Suas performances frequentemente incorporam elementos retirados de jogos, animes e outros produtos de uma cultura de massa que prolonga gostos, linguagens e comportamentos infantis até a vida adulta. A antiga ambição de transformar o mundo parece, em muitos casos, substituída pelo desejo de preservar uma identidade adolescente e obter reconhecimento imediato dentro do próprio grupo.
Talvez estejamos diante de uma espécie de síndrome coletiva de Peter Pan, não como diagnóstico clínico, mas como imagem de uma juventude que encontra cada vez menos incentivos para abandonar a adolescência. Há mecanismos visíveis o bastante: empresas disputam atenção, plataformas recompensam performances exageradas, influenciadores reproduzem aquilo que gera engajamento e algoritmos aproximam pessoas que consomem os mesmos conteúdos.
Chama a atenção que, nos grupos que farmam aura, a cultura consumida seja amplamente compartilhada e, apesar disso, o principal critério pareça ser a capacidade de chamar atenção. Ora, destacar-se num ambiente em que muitos possuem referências, gostos e vocabulários semelhantes conduz naturalmente ao exagero. Quando todos repetem a mesma linguagem, resta aumentar o volume da performance: movimentos maiores, gestos mais estranhos, roupas mais chamativas e cenas progressivamente mais artificiais.
Em outros tempos, movimentos juvenis foram utilizados para produzir ação política e mudanças nos costumes. Hoje, os incentivos predominantes parecem menos grandiosos e mais comerciais. Não é necessário afirmar que alguém tenha planejado produzir uma massa incapaz e infantilizada. Basta observar que uma população permanentemente distraída, dependente de aprovação e habituada a consumir identidades prontas é extremamente conveniente para plataformas, mercados e, por que não, para o Estado. Essa massa pode ser conduzida em muitas direções porque aprendeu a reagir antes de pensar e a imitar antes de escolher.
Se antes o jovem se rebelava contra a família, seu porto seguro, onde frequentemente estavam aqueles que o amavam de maneira mais concreta, hoje, com a dissolução ou o enfraquecimento de muitas famílias, permanece um vácuo. Contra quem esses jovens se rebelam? Em alguns casos, talvez se revoltem exatamente contra a ausência da “fortaleza que se chama família”, como diria Raul Seixas. Em outros, a rebeldia perde até mesmo um objeto reconhecível e transforma-se apenas em performance pública.
Parece-me que o enfraquecimento das famílias se combinou com a infantilização promovida pela cultura de massa, que prolonga gostos e estéticas infantis até a vida adulta. Ao mesmo tempo, a onipresença da internet transforma a experiência da atual geração de adolescentes e jovens numa verdadeira imersão. O telefone está no quarto, na escola, na mesa das refeições e, muitas vezes, debaixo do travesseiro. Não se trata apenas de consumir determinados produtos culturais, mas de habitar continuamente o ambiente que os produz, distribui e recompensa.
Não quero me colocar acima desse estado de coisas. Pelo contrário, sou parte de uma etapa anterior do mesmo processo e também fui influenciado por ele. A diferença talvez esteja apenas no fato de que hoje consigo reconhecer alguns de seus efeitos em mim e, a partir disso, suspeitar do que ocorre em escala ainda maior com a geração atual.
Quando a família ainda funcionava como espaço mais presente de formação, aprendia-se nela algum tipo de individualidade e de cultura particular, cada qual com seus erros e acertos. Havia histórias, hábitos, crenças, desconfianças e até preconceitos familiares que serviam como filtros imperfeitos diante da cultura de massa. Não havia aceitação automática de tudo o que aparecia na televisão. Ainda me lembro de meu pai, homem não escolarizado, desconfiando do noticiário pouco antes de dar boa-noite ao William Bonner. Existia a avó que mandava desligar a televisão ao ouvir “Satan! Satan! Satan!” durante um episódio de Dragon Ball, ou a mãe desconfiada ao escutar “Lúcifer” em Cybercops, na extinta Manchete.
Esses filtros domésticos podiam ser exagerados ou equivocados, mas representavam alguma resistência. Hoje, em muitas casas, a imersão é quase completa e ocorre de modo individual, por meio de telas que os adultos nem sempre acompanham. O agravante não é apenas que certos conteúdos possam ser mais perigosos, mas que o fluxo seja permanente, personalizado e capaz de alcançar cada criança ou adolescente sem atravessar nenhuma mediação humana.
A adolescência é uma fase em que se procuram referências fora da família. É o período em que se idolatram bandas, artistas, influenciadores, atores ou personagens. Isso não é novo. Numa sociedade razoavelmente equilibrada, seria de esperar que, depois dessa travessia, o jovem adulto retornasse à família não como a criança que saiu, mas reconciliado com o porto do qual partiu para navegar por si mesmo.
Porém, quando o porto está em ruínas, para onde ele voltará?