ENTRE RUÍNAS

O bárbaro caminha sobre uma cidade de pedras arrasada. Ruínas estendem-se por um amplo espaço de colinas suaves.

Ele corre os olhos ao redor. Bate os escombros com os pés. Abaixa-se e revira o chão, pega.

No meio da escória, encontra uma antiga moeda rosada. Prata adulterada de um império moribundo. Guarda-a em seu embornal.

Cruza algumas ruas, entra numa construção ainda de pé. Na porta, a placa pende por uma corrente. Na madeira, uma silhueta feminina deitada ainda pode ser vista. Dentro, mais formas desenhadas nas paredes, homens e mulheres de outrora. Toca o contorno gasto de uma mulher de cabelos cacheados pretos. Nua.

Caminha mais enquanto examina as construções arruinadas. Numa antiga fonte, a água da chuva acumula-se. Olha novamente para a moeda. Limpa-a na água lodosa. Surge a face do último imperador, um menino.

Depara-se com um palácio. Uma larga escada leva à antiga entrada. Até a porta fora saqueada. Sobe sob um sopro frio – cortante.

Dentro, ossos partidos pelo chão. Sinais da violência do passado. Na parede direita, uma escultura em relevo; um general de elmo emplumado liderando legiões contra um exército daqueles a quem o império chamava de bárbaros. Fita de perto o relevo. Toca-o com reverência. Sente o relevo ferido pelo tempo e pelas lâminas.

A escada para o segundo piso está praticamente arruinada, mas ele escala com cuidado pelas laterais. Pedras rolam. Salta. Sobe. Perto de uma janela arqueada, uma estátua jaz em pedaços. Toma dela a mão feminina, delicada. Tira a poeira. Tateia as falanges e unhas, tão perfeitas.

Com mais alguns passos, chega a um antigo trono. Mármore, encardido. Senta-se. Toca os braços. Apoia a cabeça e suspira. De olhos cerrados. Vê a cidade viva.

As ruas pulsam de cidadãos. Na bolsa de um mercador, chacoalham moedinhas rosadas enquanto um ladrão espreita do outro lado da rua. Sob a placa com silhueta de mulher, saem belas moças de cabelos enrolados exibindo corpos curvilíneos seminus. Sorriem com malícia provocante. Na porta do palácio, guardas em armaduras segmentadas reluzentes. No salão, togados discutem enquanto funcionários passam levando rolos com a velha escrita imperial.

Abre os olhos avermelhados. Segura os braços do trono com força. A cabeça permanece baixa. Com um suspiro, a mão direita cobre o rosto e, aperta-o.

FIM

Leitura Relacionada

Receba novos textos por e-mail.