Tácito, historiador romano, há quase dois mil anos, observou como os bárbaros germânicos se entregavam facilmente aos jogos de azar. Homens fortes, capazes de desafiar um império pela força da espada, prostravam-se encantados diante do rolar de alguns dados. O próprio Tácito reconheceu que os bárbaros possuíam virtudes. Admirava-lhes a coragem, a resistência e a fidelidade aos companheiros.
Também os bárbaros conheciam as vantagens da civilização: as cidades, os aquedutos, o esgoto canalizado, o comércio abundante e os confortos que somente uma sociedade longamente construída é capaz de produzir.
Naquele mundo em que muitos já percebiam sinais de desgaste da civilização romana, esses mesmos guerreiros, corajosos o bastante para se chocar contra um testudo romano, entregavam sem hesitação os bens conquistados com sangue e ferro em partidas de dados.
Apostavam, perdiam e apostavam novamente, até que nada mais lhes restasse. Quando os bens se esgotavam, apostavam a si mesmos. Perdiam, enfim, a própria liberdade.
O vício em jogos, é claro, não era uma exclusividade dos bárbaros. Ele acompanha a humanidade desde a Antiguidade. Ainda assim, não deixa de chamar a atenção que, em épocas de incerteza, a esperança de conquistar uma fortuna por um golpe de sorte pareça exercer fascínio ainda maior. Como se o acaso pudesse oferecer, num instante, aquilo que o trabalho de uma vida inteira talvez não conseguisse produzir. Como se fosse possível desfrutar dos últimos confortos de uma civilização ao som das cidades crepitando sob um céu crepuscular.