O homem empurrou a porta do pequeno apartamento, sentindo o ar quente do fim da tarde invadir cada fresta. Entrou e, com um suspiro, tirou as chaves e a carteira do bolso, deixando-as sobre a mesa azul — herança da mãe. A tinta já havia sido desgastada pelo tempo e pelo vandalismo infantil de outros anos, que deixara cruzes, estrelas, nomes e outros rabiscos.
Deixou cair as calças e tirou a camisa, largando-as no chão. De cueca, foi até a televisão e a ligou. O brilho frio da tela piscou antes de se estabilizar numa imagem levemente turva. O volume estava alto.
O apresentador, de voz grave e impostada, dramatizava cada informação de uma reportagem que se alongava mais do que o necessário.
Uma médium caminhava por corredores penumbrosos. Seus olhos arregalavam-se de horror e, de tempos em tempos, gritava como se a marcassem a ferro quente.
As paredes eram mofadas, cobertas de infiltrações; partes da pintura descascavam. Lâmpadas fracas tremeluziam — um grito da médium — close numa sombra.
— Pobres espíritos… — soluçava a médium. — Estou sentindo uma energia muito pesada aqui! — levou as mãos ao peito. — Muitas almas estão presas neste lugar… tanto sofrimento… tanta dor… uma tristeza infinita!
A música instrumental criava um mal-estar difuso. O homem passou a mão pelo rosto, sentindo a aspereza da barba por fazer.
— Você já imaginou passar uma noite aqui? O que essas paredes testemunharam? Quantos segredos sombrios escondem? — disse o apresentador em tom de desafio.
Histórias de assombração da infância passaram-lhe pela mente. Teve a impressão de um calafrio e, prontamente, sentiu-se estúpido. De qualquer maneira, não passaria uma noite ali. Nem perto.
A médium gritou:
— Meu Deus! Esse corredor… são tantos desencarnados… tanta desilusão. É uma fila enorme de desencarnados… — e chorou copiosamente, mas sem lágrimas.
O apresentador interrompeu:
— Atenção, telespectador! Em breve revelaremos mais segredos deste sinistro edifício. Não saia daí! Voltamos já…
O telespectador foi até a geladeira. Pegou uma lata de cerveja, deu-lhe dois piparotes e voltou ao sofá.
Deu uns goles, esperando o fim do intervalo — um ensolarado contraste com a atmosfera espectral do programa. O bloco terminou com um jingle do Banco Monólito, um convite a investir na poupança.
A reportagem voltou exibindo a fachada do edifício. Pelo tom sombrio do programa, esperava-se uma construção cinzenta, de janelas arqueadas em estilo neogótico ou talvez um neoclássico decadente. No entanto, era um prédio quase cúbico, de janelas quadradas — algumas de madeira, outras de metal enferrujado. O revestimento de pastilhas azuis desbotadas tinha espaços vazios devorados pelo tempo.
— É agora! Atenção, telespectadores! Voltamos para finalmente revelar os segredos deste prédio e os fenômenos sobrenaturais que acontecem aqui.
— Antes da desativação, este prédio já acumulava histórias de arrepiar. Aqui aconteceram dois suicídios de funcionários e um assassinato brutal a tiros. A vítima? — um médico…
— Os vigias relatam fenômenos estranhos: passos na madrugada, cheiro de cigarro, murmúrios e choro onde não há ninguém por perto. Agora, vamos ouvir um deles.
— Eu já vi vulto aqui — disse o vigia anônimo, a voz distorcida. — Vi entrar numa sala sem saída. Quando fui ver, não tinha ninguém. Também já escutei choro.
— Isso acontece sempre?
— Não sempre. De vez em quando.
— E outros vigias?
— Aconteceu com outros também. A gente já avisa os novatos.
— É simplesmente inacreditável! Vocês acreditam?! — provocou o apresentador.
O telespectador coçou a cabeça e tomou mais um gole da cerveja. A reportagem voltou para a médium:
— Estou no epicentro de energias terríveis…
— O médico… os outros desencarnados… não o deixam seguir.
— Não! Não posso continuar! — soluçou, estremecendo. — Sinto que vou morrer…
O narrador anunciou solenemente:
— Você acabou de ver cenas chocantes do mundo espiritual dentro de um prédio da Previdência Social. Na próxima semana, nossa médium visitará uma penitenciária desativada. Obrigado pela audiência!
A tela escureceu. O homem piscou e riu de canto. Desligou a tevê e ficou um tempo sentado. Levantou-se e foi até a janela. Antes do anoitecer completo, as últimas pipas eram recolhidas ao som dos gritos dos meninos.. Voltou ao sofá e acendeu um cigarro. Antes da primeira tragada, pegou o maço e o jogou no lixo. Sentou-se à mesa azul riscada. Entre os rabiscos na tinta leu: “Mamãe eu te amo”. Os olhos umedeceram.